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Ser mãe também é competir: histórias de mulheres que desafiam o alto rendimento
O som da peteca batendo na raquete se mistura, muitas vezes, com outro tipo de rotina: a de ser mãe. No parabadminton brasileiro, a quadra também é espaço de histórias que vão além do esporte, onde a maternidade caminha lado a lado com o alto rendimento.
Algumas delas começam muito antes da primeira raquetada — em hospitais, escolhas difíceis e decisões que mudam o rumo de uma vida inteira.
Na 1ª Etapa Nacional de Parabadminton 2026, em São Paulo, mães atletas — e mães de atletas — mostram que competir em alto nível também significa cuidar, abrir mão, insistir e, acima de tudo, acreditar.
Contra todas as recomendações, ela escolheu acreditar
A história de Silvia Trigo Delman começa quando o filho ainda era um bebê.
Frederico nasceu com uma má-formação congênita na perna e, ainda nos primeiros meses de vida, a família recebeu um diagnóstico duro: a maioria dos médicos indicava a amputação como caminho.
Foram mais de uma dezena de especialistas consultados e praticamente todos apontavam para a mesma solução. Silvia, no entanto, decidiu não seguir esse caminho. “Eu segui o meu coração. Toda a ciência indicava amputação, mas eu sentia que não era esse o caminho”, conta.
A insistência levou a família a encontrar uma médica que acreditava em outra possibilidade: um processo longo de reconstrução, com cirurgias e acompanhamento ao longo do crescimento.
A decisão mudou completamente a vida da família.
“Minha vida virou de ponta cabeça. Eu mudei minha carreira, minha rotina, tudo, para acompanhar o desenvolvimento dele”, relembra.
Formada em Direito, Silvia fez uma transição profissional e passou a atuar com desenvolvimento humano, aproximando ainda mais sua vida da rotina dos filhos. Este ano ela se forma na sua terceira graduação: educação física.
Hoje, acompanha Frederico em praticamente todos os torneios, dentro e fora do Brasil.
“O esporte ampliou o mundo dele e o nosso também. Trouxe oportunidades que a gente nunca imaginou viver”, afirma.
Entre a maternidade solo e o sonho de vestir a camisa do Brasil
Convocada para representar o Brasil nos Jogos Parasul-Americanos, na Colômbia, Ana Carolina Reis vive um dos momentos mais importantes da carreira e também um dos mais desafiadores.
Aos 22 anos, ela é mãe solo de uma menina de 5 anos e construiu sua trajetória conciliando maternidade e alto rendimento.
A filha nasceu quando Ana tinha apenas 16 anos, em plena pandemia, período de incertezas dentro e fora do esporte.
Sem a família por perto — hoje ela mora em Presidente Prudente, enquanto seus pais estão em Goiânia —, cada competição exige um esforço extra. “Quando tenho viagem, eu pego cerca de 17 horas de ônibus para deixar minha filha com meus pais e depois sigo para o campeonato”, conta.
No início da retomada, foi o irmão quem ajudou a manter o sonho vivo. “Quando ela era menor, meu irmão ficava com a minha filha para que eu pudesse treinar. Sem isso, seria muito difícil continuar”, lembra.
Hoje, a filha já faz parte da rotina da atleta, seja nas arquibancadas ou na saudade. “Quando ela não está comigo, porque nem sempre consigo trazê-la aos campeonatos, a gente sente dos dois lados”, diz.
Mesmo diante dos desafios, Ana encontrou no esporte um caminho possível. “Eu nunca imaginei voltar a competir depois de ser mãe, mas quando você está em um ambiente que te acolhe, você percebe que dá certo”, afirma.
Quando o filho vira treinador e emoção transborda
A trajetória de Adriane Ávila mostra outro lado da maternidade no esporte: aquele em que mãe e filho dividem a mesma quadra.
Hoje com 55 anos, Adriane começou no parabadminton em 2018, incentivada pelo filho. Em pouco tempo, construiu uma trajetória sólida: disputou campeonatos mundiais e foi convocada para a seleção brasileira em 2020, para um Mundial no Japão.
“Eu levava ele para treinar e acabei entrando na quadra também. Quando vi, já estava competindo”, relembra.
Hoje, o filho é também seu treinador, uma relação que exige equilíbrio entre o lado afetivo e o profissional. “Tem hora que ele é meu filho, tem hora que é meu técnico e ele é exigente”, conta.
Mas é nessa troca que a conexão entre os dois se fortalece. “A gente aprende muito um com o outro”, diz.
Ao falar sobre o filho, Adriane se emociona.
“O badminton veio para iluminar nossa vida. Poder viver isso junto com ele… não tem preço”, afirma, entre lágrimas.
Muito além do jogo
Histórias como as de Silvia, Ana e Adriane mostram um lado pouco visível do alto rendimento: o de mulheres que sustentam sonhos — os próprios e os dos filhos.
Entre decisões médicas difíceis, mudanças de vida, viagens longas e rotinas intensas, elas transformam a maternidade em parte essencial do caminho esportivo.
No parabadminton, ser mãe não é um obstáculo. É, muitas vezes, a maior motivação.
Highlights do dia: decisões e primeiros campeões definidos
O penúltimo dia da 1ª Etapa Nacional de Parabadminton 2026 foi marcado por partidas decisivas e pela definição de diversos campeões em São Paulo.
Entre os destaques, a final feminina da classe SU5 teve um duelo equilibrado entre Mikaela Almeida e Bruna Vasconcellos. Em uma partida decidida nos detalhes, Mikaela levou a melhor e venceu por 2 sets a 0, garantindo o título.
Outros resultados importantes do dia:
Maria Eduarda Sousa conquistou o título da classe SH6
Maria Gilda venceu o simples feminino da classe WH2
Na dupla masculina SU5, vitória de David Souza Lima e Felipe Matos da Costa
Na dupla feminina SL3-SL5, título para Kauana Beckenkamp e Mikaela Almeida
Na dupla masculina SH6, vitória de Dheyvid Almeida e Vinicius Costa
Nas categorias de base, também houve destaque para os jovens atletas:
Murilo Silva foi campeão do masculino sub-23 na classe SL3
Adiel Alves de Oliveira venceu o masculino sub-23 na classe WH2
Além desses resultados, outras finais e disputas do sub-23 foram realizadas ao longo do dia, consolidando a nova geração do parabadminton brasileiro.
A competição segue nesta quarta-feira com as últimas decisões da etapa, a partir das 9h, no Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro.
Todos os resultados e a programação completa das finais estão disponíveis aqui.
Foto: Ana Reis e a filha / Crédito da foto: Fotop
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